Resenha - Auto da Barca do Inferno

sexta-feira, dezembro 09, 2016


Sinopse:
O "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente, é uma sátira impiedosa da sociedade portuguesa do século XVI. Suas críticas não poupam ninguém - fidalgos, padres magistrados, mas também sapateiros e ladrões.
Cada personagem traz, nas roupas ou nas mãos, os símbolos de seus pecados e deles não podem se desfazer; não há defesa contra as acusações do Diabo ou do Anjo.
 Resenha
Auto da Barca do Inferno foi uma peça escrita em 1517, durante a transição entre a Idade Média e o Renascimento. É uma das maiores obras do teatro vicentino (teatro de Gil Vicente) e como de costume, faz uma crítica para corrigir os costumes da época.

Quando alguém morre, dois barcos estão esperando para levar as pessoas que vierem. Um leva para o inferno e outro leva para o céu. O diabo e o anjo são responsáveis por recepcionar quem vem aos seus barcos, portanto, durante o decorrer da peça, Gil Vicente manda muitos personagens que morreram.

O primeiro deles é um nobre fidalgo, que acha que pode ir para o céu justamente porque é rico. O segundo é um Onzeneiro (empresta dinheiro com juros elevados) e ele acha que pode ir para o céu por ter ajudado tantas pessoas emprestando dinheiro à elas, esquecendo-se dos juros altos que cobrava e que deixavam seus clientes em situação ainda pior. O terceiro é o Parvo, ele se chama Joane e acha que vai para o inferno, até descobrir o que estava acontecendo e que ele estava falando com o Diabo, após xingá-lo de inúmeras maneiras (para mim é a melhor cena), ele vai até o barco do anjo, já que ele é um ser puro e nunca houve malícia em nada do que ele fez. 

Eis aqui uma amostra dos xingamentos que ele faz ao diabo:


O quarto personagem é o Sapateiro, acha que por ter se confessado para o padre antes de morrer o garantiria um lugar no céu, mas ele sempre enganou e explorou o povo enquanto viveu. O quinto personagem é um Frade, ele vem com sua amante e é contente, principalmente por achar que pode ir para o céu por ter servido à igreja, mas ele era um padre corrompido que tinha uma amante. A sexta personagem é a Brísida Vaz, uma cafetina que chega lá com um colar com seiscentos himens postiços, ela achava que poderia ir para o céu por ter "salvado a vida daquelas meninas", mas na verdade ela às explorava e não enganava somente elas, mas também seus clientes, mentindo que elas eram virgens. O sétimo personagem é o Judeu, que chega lá com o seu bode e implora para o diabo lhe dar um lugar em seu barco. O oitavo e nono são o Corregedor e o Procurador que aparecem no mesmo momento e, ambos acham que podem ir para o céu porque trabalhavam com a lei, esquecendo de seus momentos de imoralidade ao fazer justiça. O décimo personagem é o Enforcado, que acha que pode ir para o céu por ter pagado seus pecados na hora em que foi condenado à forca. E por fim, temos os Cavaleiros Cruzados, que lutaram nas cruzadas e morreram lutando por Jesus Cristo. Esse passam direto pela barca do inferno e vão direto para a barca do céu.

Todos os personagens trazem consigo algum objeto ou alguma outra coisa que simbolize a sua vida na terra ou a sua classe social.


Eu avaliei esse livro como excelente porque por meio desses personagens, Gil Vicente critica cada parte de uma sociedade cheia de imoralismos. Não é só porque você é rico, ou padre, ou morreu por seus pecados que você é digno de viver no paraíso pelo resto da eternidade. Na hora do "julgamento" todos os seus pecados e erros serão levados à tona e você terá de pagar por todos eles, essa é a lição que o autor tenta passar. Além disso, várias partes dessa pequena peça são muito engraçadas, justamente porque ele seguia a ideia de que rindo corrigem-se os costumes (ridendo castigati moris). Quando fiz a primeira leitura, muitas informações me escaparam, mas ao fazer a releitura, tudo ficou mais claro e nem mesmo a linguagem arcaica daquela época atrapalhou a leitura. A versão em pdf dessa página tem 38 páginas e você consegue ler em menos de 1 hora, com certeza! Vale muito a pena, recomendo fortemente!

E você, já leu Gil Vicente? Já ouviu falar dessa peça? Comenta aí!

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